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A Primeira Bofetada Filosófica - TIOZÃO ONLINE

  • campusaraujo
  • 26 de jan.
  • 2 min de leitura
Mesa de bar vazia com um livro, um cinzeiro e uma xícara de café. A frente, sombra de homens discuti ndo
A filosofia é uma constante discussão que dificilmente traz consenso, mas gera questões


A Primeira Bofetada Filosófica


A primeira vez que li Nietzsche, fiquei dois dias sem saber se eu existia mesmo ou se só tava fingindo com muita competência. Foi como levar um tapa metafísico na cara, uma verdadeira bofetada filosófica. Eu tinha aquela arrogância típica da adolescência.


Queria estudar filosofia pra vencer discussões, deixar as pessoas sem resposta, humilhar na mesa do bar com citações gregas como quem arremessa dardos envenenados. Pois é. Mal sabia que, no fim, quem ficaria sem respostas seria eu.


Achei que, ao mergulhar nos pré-socráticos, eu sairia de qualquer conversa com um argumento indestrutível, um tipo de Excalibur intelectual. Ledo engano. Em vez de certezas, encontrei mais dúvidas do que cabelos na cabeça. E ainda ganhei uma mania insuportável de desconfiar de tudo: do preço do pão, da moralidade das pombas e da própria existência de Deus.


Lembro nitidamente da minha primeira crise existencial. Eu tinha 17 anos e acabara de ler um parágrafo de Schopenhauer. Um único parágrafo! Hoje sei que aquele parágrafo de Schopenhauer não era só um susto juvenil, mas outra bofetada filosófica, mais silenciosa e igualmente eficaz.


Fechei o livro e pensei que talvez eu seja só a vontade cega de continuar me enganando. Fui até o espelho, me encarei com uma intensidade ridícula e odiei o que vi. Como todo filósofo amador derrotado pela vida, fui tomar café. O café, ao menos, era real. Ou eu espero que tenha sido.


Entre Existencialistas e Desilusão


A filosofia é uma arte suicida de ideias. Você começa querendo saber o que é a verdade e acaba duvidando se o chão é chão mesmo ou só uma metáfora particularmente bem escrita. Os pré-socráticos tentaram reduzir o mundo a água, fogo, ar ou caos. Já os modernos declararam penso, logo existo, como se essa frase resolvesse alguma coisa, como se pensar já fosse prova de alguma sanidade.


Depois vieram os existencialistas, cheios de elegância trágica, dizendo: você existe, sim. E a responsabilidade é sua. Boa sorte aí.


No fim das contas, a filosofia não serve pra ganhar debates, serve pra perder ilusões. Ela não entrega respostas, entrega perguntas melhores. Muito raramente, responde, e faz isso com tanta sutileza que você nem percebe que acabou de ser insultado.


Jovem sentado com um livro enorme sobre as coxas.
Busquei de todas as formas estudar para não receber nova bofetada filosófica

Hoje vejo gente dizendo que a filosofia é inútil. Concordo. É inútil como o amor, como a arte e como o silêncio. Essas coisas que mudam a vida inteira sem pedir permissão. Se você ainda não brigou consigo mesmo, cuidado. Não corra o risco de aceitar tudo fácil demais. E quando brigar, lembre-se:


Você vai perder. Mas sairá mais sábio dessa surra.



 
 
 

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