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Manual Breve da Covardia Coletiva, Uma Capivara Espancada

  • campusaraujo
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

009 - imagem  preto e branco de uma capivara ferida, com faixa na cabeça e nas patas dianteiras.
Capivara espancada por seis covardes

Seis Homens, uma Capivara Espancada e o Abismo Olhando de Volta


Seis. Nem tragédia grega teve tanto excesso de covardia pra tão pouca necessidade dramática. E veja, meu caro interlocutor invisível, eu não tô aqui defendendo a capivara como se fosse uma santa laica, embora talvez seja mais digna que muitos batizados. Tô apenas constatando o óbvio. Quando o homem precisa de cinco outros pra espancar um animal que mastiga capim e contempla a água, o problema já não é o animal. É a falência moral em estado bruto, quase palpável, quase cheirando a ferrugem e medo.


A capivara não correu pra um banco, não desviou verba pública, não escreveu um livro ruim cheio de palavras da moda, dessas que me dão alergia, nem traiu ninguém num jantar de família. A capivara apenas existia. E isso, aparentemente, tornou-se insuportável.


Há algo de profundamente revelador nisso tudo. Porque a violência gratuita nunca é gratuita. Ela é sempre sintoma. Sintoma de um vazio, de uma mediocridade que precisa se afirmar na destruição do que não reage. É fácil ser valente diante do silêncio de um bicho. Quero ver esse mesmo ímpeto diante do próprio espelho às três da manhã. Mas aí já não há plateia, não há riso, não há cumplicidade de outros cinco idiotas armados de paus. Só resta o sujeito e isso, meu amigo, costuma ser insuportável.


Nietzsche, que eu cito com o cuidado de não parecer um desses pedantes de rede social, falava do abismo. Aqui temos seis homens olhando pra dentro dele e o abismo, constrangido, desviando o olhar.


E no meio disso tudo, quem me salva é o Botox, meu cachorro. Porque ele não entenderia essa cena. E talvez seja exatamente por isso que ele seja melhor do que nós. Eu olho pra ele, pequeno, branco, peludo, e penso. Ainda há algo que não foi corrompido pela necessidade grotesca de provar força onde só existe fragilidade.


A capivara, ferida, ainda respira. E veja que curioso. Há mais dignidade na respiração difícil de um animal espancado do que em seis homens inteiros. Isso não é metáfora, é constatação.


No fim das contas, não é sobre a capivara. Nunca é. É sobre o quanto conseguimos descer sem perceber que já não estamos mais caminhando, estamos rastejando. E eu, que já vi tanta coisa, ainda me espanto. O que, convenhamos, talvez seja o último sinal de que ainda não me tornei um deles.


 
 
 

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