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O Mistério do Filme do Pelé no Chaves

  • campusaraujo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Arte com a sequência da bicicleta do Pelé em FUGA PARA VITÓRIA


O Maior Papel de Pelé Nunca Foi no Cinema


Existe uma categoria de verdade que só sobrevive porque ninguém resolve conferir. Ela não precisa de documentos, testemunhas ou provas. Basta que seja repetida durante uns quarenta anos. Aí vira patrimônio cultural.


É o caso do famoso filme do Pelé do Chaves.


Passei metade da vida acreditando que o menino da vila mexicana preferia trocar qualquer programa pelo tal filme do Pelé. Nunca me ocorreu perguntar qual era o filme. Também nunca encontrei alguém que tivesse dito: "Assisti ontem. Excelente fotografia. O roteiro é um pouco lento, mas Pelé tá impecável."


O curioso é que milhões de brasileiros conhecem a frase, mas pouquíssimos conhecem os filmes de Pelé. Quando descobrimos que, na versão original, Chaves queria assistir a El Chanfle, de Chespirito, a primeira reação é de espanto.


A segunda é de admiração pelos dubladores brasileiros. Eles fizeram aquilo que hoje os especialistas chamam de "adaptação cultural". Eu prefiro chamar de inteligência. Afinal, quem, no Brasil de 1984, sabia o que era El Chanfle?


Agora, pergunte quem era Pelé


Não precisava responder. Bastava olhar pra qualquer canto do planeta.

Pelé dispensava legenda. E isso explica uma diferença curiosa entre fama e celebridade. Celebridade é conhecida enquanto aparece. Pelé continuou conhecido mesmo depois que parou de aparecer.


Aliás, continua.


Outro dia ouvi alguém dizer que Pelé pertence ao passado. Concordo. Assim como Shakespeare, Leonardo da Vinci, Machado de Assis e a gravidade pertencem ao passado. Nem por isso deixaram de funcionar.


Mas existe uma diferença entre Pelé e os outros gênios. Os outros precisam ser estudados. Pelé bastava ser visto. Até Hollywood percebeu isso.


Em Fuga para a Vitória, colocaram Sylvester Stallone, Michael Caine, Max von Sydow e um punhado de craques históricos. Um elenco respeitável. Mesmo assim, décadas depois, pergunte a qualquer pessoa qual cena ela lembra.


Quase ninguém fala do pênalti defendido por Sylvester Stallone. Todos lembram da bicicleta de Pelé. É curioso observar como funciona a memória coletiva. O astro americano era o protagonista do roteiro. Pelé virou protagonista da lembrança.


Hollywood tentou contar uma história de guerra. Pelé acabou contando uma história de futebol. E ganhou. Como sempre.


O mais engraçado é que Pelé nem precisava representar. Bastava entrar em campo. Durante vinte anos ele interpretou um personagem impossível de escrever: o maior jogador do mundo. Talvez por isso tenha parecido tão natural diante das câmeras.


Enquanto alguns atores treinam meses pra parecer atletas, Pelé precisou apenas fazer o que fazia desde menino.


Hoje vivemos uma época curiosa. Tudo precisa ser comparado. O melhor cantor desde... O maior piloto depois de... O novo Pelé. Tenho uma sugestão revolucionária.


Que tal deixar Pelé em paz?


Não existe "novo Pelé" da mesma forma que não existe "novo Mozart" ou "novo Einstein". Existem excelentes jogadores. Pelé continua sendo Pelé. E talvez seja exatamente por isso que os dubladores escolheram seu nome. Eles sabiam que havia referências universais.


E havia Pelé.


No fim das contas, a famosa frase do Chaves virou uma espécie de monumento involuntário. Ela não divulgou um filme específico. Divulgou um símbolo.

Durante quarenta anos, o Brasil inteiro repetiu o nome de Pelé sem perceber.


Enquanto isso, El Chanfle permanecia praticamente desconhecido por aqui.

É uma das raras ocasiões em que uma tradução ficou mais famosa do que o original. Talvez porque algumas verdades dispensem fidelidade literal.


Basta ser verdadeiras emocionalmente.


No fundo, ninguém queria mesmo assistir ao filme do Pelé. As pessoas queriam assistir ao próprio Pelé. Era diferente. Pelé transformava noventa minutos numa sessão de cinema. Cada partida tinha roteiro, suspense, humor, drama e um final quase sempre feliz pra quem gostava de futebol.


Pensando bem, talvez Chaves estivesse certo o tempo todo. O melhor programa nunca foi assistir a um filme do Pelé. O melhor sempre foi assistir ao Pelé. E esse espetáculo, infelizmente, o cinema jamais conseguiu reproduzir.




 
 
 

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