VAR - A Morte do Impedimento Duvidoso
Atualizado: 25 de jun.

A tecnologia expulsou o lado mais divertido do futebol
A tecnologia se instalou de vez no futebol com o VAR, o grande exterminador de amizades, casamentos, mesas de bar e árvores genealógicas dos árbitros.
Na minha época, futebol não era apenas um esporte. Era uma investigação policial conduzida por bêbados. O jogo terminava no domingo, mas a discussão seguia até a quarta-feira.
O sujeito chegava ao trabalho carregando jornais, fitas VHS e uma convicção inabalável de que o juiz havia roubado seu time. A ciência podia duvidar, a filosofia podia questionar, mas o torcedor tinha certeza.
Hoje não. O sujeito faz um gol, corre quarenta metros, sobe no alambrado, beija o escudo, abraça o gandula, chora, faz promessa pra santo, pra tia e até pro cachorro. Então aparece um cidadão numa cabine climatizada em algum lugar do planeta dizendo:
— Calma. Vamos traçar umas linhas.
Pronto. Acabou a alegria.
O futebol inventou uma tecnologia capaz de transformar um gol em processo administrativo. Antes havia a beleza da dúvida. A bola entrou? Não entrou? Foi pênalti? Não foi? O atacante estava impedido? Talvez. Era justamente esse talvez que alimentava a alma do futebol. O torcedor passava a semana inteira defendendo uma tese absurda com a mesma paixão de um advogado defendendo um inocente.
Hoje surge uma linha azul, uma linha vermelha, uma linha amarela, uma linha que parece projeto de arquiteto, e decretam que a ponta da unha do atacante estava três milímetros à frente. Três milímetros! Se Newton tivesse visto isso, teria abandonado a física pra torcer pelo Nottingham Forest.
E o que dizer do juiz ladrão?
Tá em extinção. Antigamente cada torcida tinha uma lista completa de árbitros criminosos. As mães dos juízes eram personagens centrais do espetáculo. Recebiam homenagens criativas vindas de quarenta mil especialistas em anatomia e genealogia.
Hoje o árbitro aponta pro ouvido, faz cara de quem tá recebendo instruções da NASA e aguarda o veredito eletrônico. Nem pra xingar direito serve mais.
O VAR trouxe mais justiça. Não vou negar. Mas também matou uma espécie rara: o torcedor que passava três horas no boteco explicando, com um guardanapo rabiscado e algumas cervejas na cabeça, por que um impedimento inexistente havia destruído o futuro da nação.
O futebol ficou mais correto. E infinitamente menos divertido.




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